A resistência indígena frente à violação dos direitos humanos

Por Cristine Takua

Professora indígena, fornada em filosofia pela Unesp e pertencente à terra indígena Ribeirão Silveira, nos arredores de Bertioga.

Resistimos a mais de 518 anos de golpes. Ainda querem nos calar. Vamos gritar mais forte. Mesmo em meio a censuras, violências e falta de reconhecimento estamos dando continuidade à luta dos povos originários desse país. Estamos indignados, mas não desistiremos de lutar. Estamos prontos para a guerra. Se nos matarem vamos renascer!

Desde o início da colonização do Brasil os povos indígenas vêm sofrendo transformações em seu modo de viver.

Cristine Takuá, educadora e militante indígena (Divulgação)

A Guerra Guaranítica foi um dos principais levantes indígenas brasileiros contra o domínio dos colonizadores europeus. Os guaranis resistiram durante anos, até serem derrotados por um gigantesco exército das duas nações européias. Sepé Tiarajú, que foi torturado e executado em 12 de fevereiro de 1756, se tornou o maior ícone do movimento indígena nacional, exemplo de luta, coragem e resistência, mas até hoje desconhecido pelos brasileiros e ocultado nos livros de história.

Muitos anos se passaram e, em 1964, se inicia a ditadura militar no Brasil. Poucos falam disso, mas grupos indígenas como os krenak e maxakali foram duramente atingidos. O relatório da Comissão Nacional da Verdade estima que no mínimo 8.350 indígenas foram mortos por conta de políticas de Estado naquele período.

O relatório denuncia uma estratégia de forçar a integração dos povos indígenas e colonizar seus territórios para implementar um projeto político e econômico do governo, que até os dias atuais vem brutalmente impactando as terras indígenas, como a tentativa de aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 215 e a ideia do Marco Temporal de ocupação das terras indígenas, que estabelece a data da promulgação da Constituição Federal, 5 de outubro de 1988, como referencial para o reconhecimento ao direito originário da ocupação de um território por um povo.

O golpe de 2016 entrou pra história de nosso país como uma das maiores violações aos direitos do povo brasileiro. E agora em 2018 assistimos uma terrível ameaça escancaradamente anunciada. A pauta indígena sempre foi uma questão difícil no Brasil porque ela fere muitos interesses econômicos. Em nome da ordem e do progresso, pretendem aprovar medidas para invadir mais uma vez os territórios com grandes empreendimentos.

A Constituição, que este ano faz 30 anos, garante aos povos indígenas o direito ao uso das terras e das práticas de suas culturas ancestrais, porém esses direitos estão sendo violados todos os dias.

Durante muitos séculos, os pajés nos quatro cantos do planeta vem equilibrando a vida na Terra, através de seus cantos, rezos, curas e sabedoria, proferindo a palavra sagrada e transmitindo a essência de sua cultura. Eles são médicos, rezadores, curandeiros, conhecedores de sua ciência e filosofia.

Porém desde o período da colonização, missionários chegam violentamente impondo na cabeça de milhares de povos o evangelho de Jesus. Isso resultou no maior etnocídio de nossa história. Com isso, se empenharam durante séculos em conquistar as almas dos povos indígenas, das mais terríveis e perversas formas, oferecendo cestas básicas, medicamentos, roupas velhas, muitas vezes até sujas, em troca da conversão.

Além do etnocídio também ocorreu em grande quantidade um genocídio incalculável, devido à doenças contraídas e até suicídios coletivos por povos que se negavam à conversão. O genocídio matou os povos em seus corpos físicos e o etnocídio em seu espírito, sua essência, que é a sua cultura.

Os espíritos da floresta estão bravos, estão pedindo socorro, pois cada árvore derrubada, cada rio contaminado faz com que eles desapareçam.

Os pajés precisam ser respeitados agora antes que seja tarde demais e o céu caia sobre nossas cabeças!

No entanto, enquanto os maracás estiverem soando dentro das casas de reza, as crianças cantando e os rezadores entoando a palavra sagrada ainda haverá resistência. Em cada semente de milho, de abóbora, de mandioca, de palmito, de cambuci, de jaracatiá, de pacuri, de embiruçu, de taioba, de pariparoba, de banana, de plantinhas sagradas que curam estiverem sendo cultivadas ainda haverá a certeza de que esses tempos sombrios passarão.

O caminho é a resistência e resiliência dentro do coração de cada um! Resistir para sobreviver! Acreditar para não deixar de sonhar!

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