‘A verdade vos libertará’

Por Edilamar Galvão

Coordenadora do curso de jornalismo da Faap e pesquisadora nas áreas de Arte e Tecnologia, Comunicação e Cultura Digital.

Podemos considerar a evolução das tecnologias da comunicação como uma espécie de desenvolvimento de uma “ágora original”, onde se discutem a representatividade, e onde as pessoas se fazem representar. À medida que essas tecnologias se desenvolvem, também podemos esperar que a ágora seja ampliada e que mais atores possam se ver representados para discutir os problemas que são da comunidade, da pólis e da humanidade.

Assim, nada mais oportuno do que discutir o papel do jornalismo e do jornalista para garantir os princípios que foram estabelecidos há 70 anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Princípios fundamentais cuja beleza é considerar por norte uma comunidade humana, a possibilidade de diálogo nessa comunidade e a construção de um sentido de humanidade universal em que a diversidade das culturas seja respeitada, tanto quanto a dignidade de todos os seus indivíduos.

O jornalismo não se fez alheio a essa preocupação. O Código Internacional de Ética dos jornalistas foi assinado em 1978, a partir de várias organizações que representavam 400 mil profissionais em encontros promovidos pela Unesco. Se a Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma quais são os princípios fundamentais devem ser protegidos, os 10 princípios do código reafirmam o compromisso que o jornalista tem em ajudar a construir, garantir e defender esse mundo de paz.

Edilamar Galvão, coordenadora do curso de jornalismo da Faap (foto: Ira Romão)

A “arma” do jornalista é a informação verdadeira. Não é necessariamente uma “verdade metafísica”, objeto de toda uma história da filosofia e das religiões. Mas uma “verdade mínima”, a dos fatos, como denominou Hanna Arendt. A verdade que nos permita saber o que está sendo feito com o nosso planeta com o uso das tecnologias na indústria e na agricultura, por exemplo. Onde estão investidos os montantes de dinheiro. Quantas pessoas morrem de fome –ou de suicídio. Qual é a concentração de renda. Qual a população que está trancafiada nos presídios e quais delitos cometeram. Estarão presos os criminosos que roubam a humanidade inteira? Quantas crianças são desprovidas de educação na minha cidade, no meu Estado, no meu país, no mundo? Quantas mulheres são mortas só por terem nascido mulher? Quantos homossexuais são mortos por sua maneira de amar? Quanto ganham os políticos? Quais são suas ações em defesa da sociedade ? Quem ganha com as guerras no mundo?

Quais são os números da indústria armamentícia? E, claro, quais são as diversas expressões da alegria e da cultura no mundo inteiro? Sabemos as respostas dessas “verdades mínimas”?

A cultura digital permite uma apropriação cada vez mais ampliada e generalizada por uma diversidade também cada vez maior de vozes e de sua capacidade de comunicar –o que é uma conquista. Mas, sabemos também que essa possibilidade de formar “comunidades” é uma possibilidade de articular grupos para qualquer fim, alguns deles muito perigosos.

Daí a importância da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do Código Internacional de Ética do Jornalista. Essas comunidades “perigosas” o são por traírem esses princípios e a possibilidade de construirmos pontes e diálogos no lugar de muros e silenciamentos forçados. E a principal ferramenta dessas “comunidades” é a disseminação da mentira. Aproveitam-se do amplo acesso das tecnologias da comunicação para organizarem uma rede de desinformação para alcançar seus objetivos.

Nesse sentido, a época da cultura digital é, infelizmente, também a das chamadas “fake news”.

No entanto, não será um passo atrás no acesso às tecnologias que nos trará a verdade. Diante do desafio colocado por esse acesso, se multiplicam iniciativas profissionais de verificação de notícias. Com elas, a sociedade inteira também precisa começar a aprender a viver nesse novo mundo e a separar o joio do trigo ⎯e a desinformação da verdade dos fatos, nossa “verdade mínima”.

Pois, informação é o que nos leva a tomar decisões na nossa vida individual e em comunidade. O próprio papa Francisco não ficou alheio ao espírito do tempo. Em janeiro de 2018, enviou uma mensagem com o tema “Fake News e Jornalismo de Paz”, antecedida de uma citação bíblica: “A verdade vos tornará livres” (João, capítulo 8, versículo 32).

Certamente que a verdade a que se refere o papa é metafísica, mas não se chega a ela se não formos capazes de ao menos, enxergar essas “verdades mínimas” que constituem nossa realidade e a partir das quais podemos tomar decisões acertadas para construir uma comunidade humana socialmente justa, segura e inclusiva.

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