Debates sobre como evitar suicídios e reduzir ódio e violência encerram Semana pela Paz

Uma longa faixa formada por roupas costuradas foi pendurada na entrada da Secretaria de Educação, no centro de São Paulo, com a mensagem “Preciso dizer que te amo”.

A intervenção faz parte de um projeto que chama a atenção para o suicídio de homens trans e gays e é o título do documentário de Ariel Nobre, apresentado na tarde de sexta-feira (21), durante a Ação de Combate ao Discurso de Ódio, no auditório da secretaria.  

“Há três anos, eu escrevo essa mensagem no mundo. Faço isso porque sobrevivi ao suicídio e porque lembrei que, antes de morrer, eu precisava escrever as minhas últimas palavras. Desde então me propus a escrevê-las, para permanecer transvivo”, explicou Nobre.

O diretor Ariel Nobre (foto: Ira Romão)

Para a estudante Aimée Melo, 15, o vídeo representou uma fase da sua vida. “Fiquei impactada, porque pelo título [Preciso Dizer que Te Amo] achei que seria mais um filme clichê, bonitinho, e me deparei com um problema que eu comecei a ter, a depressão. Me identifiquei muito”, disse.

O assunto é destaque do Setembro Amarelo, campanha nacional de prevenção ao suicídio.  “Essa é a terceira causa de morte na juventude do Brasil, entre os homens brasileiros, e a maior parte se dá dentro das casas, e ouso dizer dentro de nós. É preciso dizer que te amo”, ressaltou Nobre, com um lenço amarelo nas mãos.

Seu documentário fez parte da série de apresentações e atividades que encerraram a Semana da Paz, parte da agenda de Direitos Humanos O Mundo que Queremos. O evento começou com o documentário A Guerra do Brasil, do jornal O Globo.

O filme mostra que ocorreram no Brasil 786 mil homicídios entre 2001 e 2015. Esse número de assassinatos é maior que os das guerras do Iraque e da Síria. Desse total, 7 a cada 10 vítimas foram mortas por armas de fogo, sendo que mais da metade delas tinha menos de 29 anos.

A advogada Marina Ganzarolli (foto: Ira Romão)

Sobre mortes violentas, a advogada Marina Ganzarolli, cofundadora do Defemde, uma rede feminista de juristas, destacou os casos de feminicídios no país. “O Brasil é o quinto país do mundo em assassinatos de mulheres. Meio milhão de estupros acontecem por ano no país. E o lugar mais perigoso para a mulher é dentro de casa”, disse.

Marina citou outros índices da violência. “Nós somos o primeiro país do mundo em transfeminicídio, a cada 22 horas uma pessoa LGBT é assassinada. Se você for uma pessoa trans, a sua expectativa de vida cai para 35 anos, menos da metade da idade nacional. O assassinato de lésbicas aumentou 237% entre 2014 e 2017”, destacou.

Para a advogada, combater essa violência exige mudar hábitos comuns e estruturais. “É preciso provocar ‘torta de climão’ nos grupos de família, não dá pra deixar passar piadas de bunda, de preto, de lésbica, de traveco. Não é só uma piada, é por causa delas que as mulheres estão apanhando dentro de casa e jovens LGBTs estão se suicidando”.

Sílvio Royalle, da Palas Athenas (foto: Ira Romão)

Sílvio Royalle, da instituição Palas Athenas, palestrou sobre Comunicação Não-Violenta; Ele contou ter perdido dois irmãos para a violência e pontuou a importância da empatia. “É preciso ter cuidado com o que falo ou faço, porque as relações só podem ser sustentadas se as necessidades de todos forem atendidas. Reclamamos tanto sobre a violência, mas será que não fazemos parte disso?”, questionou.

Essas e outras perguntas foram utilizadas para provocar reflexões. Em uma das dinâmicas, Royalle pediu para, que em pares, as pessoas dessem um minuto de atenção para a resposta do protocolar “Oi, tudo bem?” e respondessem com sinceridade à pergunta.

Para a diretora escolar Sônia Bernardo Pieiri, a palestra de Royalle foi o ápice do evento por tratar deste assunto. “As pessoas precisam se ouvir. Estamos vivendo um momento no mundo de falta de respeito e isso precisa ser trabalhado, para alcançarmos a paz”, destacou.

Victor Del Vecchio e Zenaida Lauda, do Promigra (foto: Ira Romão)

Tolerância e respeito também foram tratados na palestra “Xenofobia: impactos e desconstrução”, de Victor Del Vecchio e Zenaida Lauda, do Promigra (Programa de Conscientização e Proteção ao Direito do Migrante da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo).

“A xenofobia não é só preconceito contra estrangeiros, mas também pode vir de alguém de São Paulo com um nordestino. E pra isso é preciso falar sobre migração. Você não precisa migrar por estar fugindo de uma guerra, pode migrar por diversos motivos, trabalho, estudo, um amor”, explicou Del Vecchio.

Zenaida é peruana e conta que viveu situações de preconceito e racismo no Brasil. “Quando cheguei, pelas minhas feições, me abordavam como boliviana. Percebia reações de surpresa quando eu dizia que estava fazendo doutorado. Depois soube que havia preconceito com bolivianos, que são vistos aqui só para determinados trabalhos”, disse.

A artista sul-africana Nduduzo Siba (foto: Ira Romão)

Outra estrangeira, a artista sul-africana Nduduzo Siba encerrou a programação contando sua história no Brasil e apresentando sua música. A cantora foi presa no país, após ter caído em uma armadilha do tráfico de drogas. “Esse tempo foi fundamental para a base da pessoa que eu sou hoje. Fiquei muito triste de ver que naquele lugar não tem nenhuma forma de esperança. Para a maioria das pessoas atrás das grades é difícil sonhar em ter um futuro.”

Nduduzo conta que a música a salvou. “Dentro da prisão, eu consegui me ouvir por dentro”. Ao final do evento, ela cantou três músicas e foi ovacionada.

Fachada da Secretaria Estadual da Educação (foto: Ira Romão)

 

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