Filmes que retratam LGBTfobia nas periferias e em Cuba encerram TRANSdocumenta

Com uma camisa colorida, brincos escuros, colar de pedras pretas e prateadas, cabelo crespo e dentes um pouco separados, Laila Dominique encara a câmera e responde: ‘Tudo bem, se melhorar, estraga”. Em seguida, conta que trabalha com limpeza. “Cada faxina é um flash”. Em Jaguariúna, região metropolitana de Campinas (SP), ela sai para beber cerveja e “ver os bofinhos, que são chiques de doer”.

Assim começa o documentário “Bicha Preta”, exibido nesta segunda-feira (9), no último dia da mostra TRANSdocumenta no Museu da Imagem e do Som, junto com outros sete títulos. Abaixo, detalhes sobre três dos filmes exibidos. Dois deles estão disponíveis na internet.

A primeira produção, “Bicha Preta”, dirigido por Thiago Rocha e disponível aqui, apresenta Luanna de Oliveira, Fabrício Júnior e Gabriel Sanpêra. Negros, os três falam sobre suas vidas e as dificuldades que tiveram para revelar suas identidades e se encontrarem. Suas histórias vividas com suas famílias, com amigos e no mercado de trabalho são contadas em trechos bem recortados para mostrar o desafio da negritude LGBTQIA+.

Encerramento teve uma festa na área externa do MIS (Léu Britto)

Luanna, 25, mulher trans, chama a atenção para os desafios que encontrou no mercado de trabalho. Ela começou a trabalhar aos 15 anos e conta que nunca teve dificuldade para arrumar emprego. Isso antes de sua transição. Depois, ficou quase impossível. Para ser chamada a entrevistas, várias vezes usou a tática de colocar o nome masculino. Uma vez, começou a trabalhar, mas não foi registrada, ou ‘fichada’, como ela diz, mesmo depois de um mês. Acabou abandonando a função.

Fabrício, 20, se define como uma “bicha preta” e sempre lidou bem com a questão da sexualidade. No entanto, em um certo momento, começou a se perguntar sobre o porquê de se relacionar com homens brancos e magros e descobriu que havia um certo racismo na busca por parceiros. Depois de refletir, ele passou a buscar pessoas mais parecidas com ele.  

“Quando você é LGBT, a escola é pior lugar para você estar”, afirma Gabriel Sanpêra. Ele fala sobre o racismo que sofreu na infância. Uma das partes mais marcantes é quando recorda uma pixação na parede de sua casa, feita por colegas de classe: “bichona”.

Ainda com dificuldades, Gabriel ganhou um concurso de literatura negra com o texto Ontem apanhei da polícia. Ele já escreveu três livros, fruto de seus cadernos de anotações, muitas vezes refúgio que o ajudava a lidar com os ataques que sofria.

Evento de encerramento teve uma feira de expositores LGBTQIA+ (Léu Britto)

Em Transit Havana, Odette, Juani e Malú são pobres e esperam uma cirurgia de mudança de sexo, para dar novo sentido às suas vidas e identidades. O documentário é uma produção holandesa dirigido por Daniel Abma.

Mariela Castro, filha do ex-ditador cubano Raúl Castro, é um dos destaques. Ela é ativista que busca a garantia dos direitos das minorias sexuais. Ela ajuda a trazer cirurgiões plásticos da Europa  realizar cirurgias de mudança de sexo em Cuba. O problema é que somente cinco pessoas a cada ano podem ser atendidas.

As cenas do filme mostram belas imagens de Cuba e momentos cotidianos do país, onde há algumas restrições aos LGBTs. E retrata como as personagens lidam com os nãos, as derrotas e a busca por aceitação na família, no Exército e na vida.

Na virada do ano, em 2015, Malú, deitada na cama para dormir enquanto os fogos estouram no céu, pede saúde para o novo ciclo. E também a cirurgia. Porém, este último pedido parece vir com certa resignação, como se fosse algo distante. Nem todos os personagens do filme terão um final feliz.

Exposição fotográfica “Geni – Um Ensaio Fotográfico com Corpos Transitados” fez parte da mostra (Léu Britto)

No curta metragem Estamos Todos Aqui, dirigido por Chico Santos e Rafael Mellim e disponível neste link, seguimos Rosa Luz, líder da Favela da Prainha, no litoral sul de São Paulo, que lida diariamente com questões como o racismo, a homofobia e a falta de moradia.

Em 22 minutos, conhecemos um pouco mais de sua história e da vida de outras pessoas que moram na favela e dividem a preocupação de perder suas casas. Imaginar como é viver com esta sensação todos os dias é algo perturbador.

O rapper Tiely Queen, a atriz Rubi de la Fuente e o diretor Ariel Nobre realizaram um debate  (Léu Britto)

No evento de encerramento da Mostra TRANSdocumenta, na segunda-feira (9), houve uma feira de expositores LGBTQIA+, como a marca DASPOC, que usa do humor para combater a homofobia. Alguns coletivos, festas e blocos de São Paulo ocuparam a área externa do MIS para performances e dança. A cantora Rosa Luz fez um pocket show. Mais de mil pessoas compareceram ao evento, segundo os organizadores. 

A exposição fotográfica “Geni – Um Ensaio Fotográfico com Corpos Transitados” e um painel para pensar a diversidade na produção cultural de São Paulo, com o diretor Ariel Nobre, a atriz Rubi de La Fuente e o rapper Tiely Queen, completaram a programação no espaço. 

O painel foi aberto com a apresentação do vídeo TRAN$RICO, dirigido por Ariel Nobre, que traz o manifesto “Parem de nos matar. Comecem a nos contratar!”.

No debate, Ariel Nobre ressaltou que o cinema é feito por pessoas que não compartilham as mesmas realidades que o público LGBTQIA+. “A gente quer ser sujeito. Não quero o apocalipse do cinema, da propaganda, mas que criem estratégias de inclusão”, defendeu.

Ruby falou sobre a falta de acesso da comunidade LGBTQIA+ às empresas e espaços de trabalho com direitos e garantias. Ela criou o TRANSmissão, equipe de produção formado só por pessoas trans. “A gente se encontra, o sofrimento é o mesmo. Com o meu projeto, eu ajudo e sou ajudada”, disse.

O rapper Tielly Queen comentou as dificuldades de assumir sua identidade dentro do hip hop em São Paulo. “Vocês não fazem ideia de quantos shows tenho que produzir para eu mesmo cantar. Se não for assim, não vou ser artista”, contou.

A mostra TRANSdocumenta integra a agenda de eventos O Mundo que Queremos, uma série de ações relacionadas aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Encerramento teve uma festa na área externa do MIS (Léu Britto)

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