Indígenas contam as dificuldades para preservar sua medicina e sua fé

O Brasil não foi descoberto, mas sim invadido, porque quando Cabral chegou os indígenas já estavam aqui! Esse grito forte deu início ao Festival de Culturas Indígenas, realizado no sábado (18), no Memorial da América Latina, em São Paulo, com dezenas de membros de várias etnias brasileiras.

Além da feira de artes, exibição de documentários e apresentações culturais, o evento teve palestra e rodas de conversa. No espaço de debates, monopolizaram a atenção da platéia a [difícil] convivência entre a medicina indígena e a ocidental e a intolerância religiosa. Participantes protestaram contra a forma de atuação de grupos missionários nas aldeias.  

Vindos de vários Estados, os indígenas chegaram ao evento de calça jeans, tênis e celular na mão. Minutos depois, reapareciam, mostrando os corpos pintados, com colares, pulseiras e outros adereços. Essa “transformação” simbolizou uma das questões relatadas por eles: a “quase invisibilidade”.

Rituais foram apresentados no início e no fim do evento (foto: Ira Romão)

Há 20 anos em São Paulo, a pernambucana Lidia Pankararu mora numa comunidade indígena com 600 pessoas. “Nós estamos no Brasil inteiro, mas parece que somos invisíveis”. Membro da associação SOS Pankararu, Lídia faz palestras em escolas e diz ouvir “perguntas absurdas”, como “o que vocês comem, por que não estão na selva, se usam celular e vestem calça e camiseta?”. “Não estamos apenas em aldeias isoladas. Somos como todo mundo e nossa vida é muito diferente do que contam os livros de história”, comentou.

Na abertura do Festival, Ana Paula Fava, assessora especial para Assuntos Internacionais do governo paulista, disse que existem 800 povos indígenas na América Latina, que somam 45 milhões de indivíduos, número equivalente à população do estado de São Paulo. “Nosso papel é divulgar essa cultura, mantendo-a viva”, afirmou.

Gabriela Almeida, representante da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, lembrou da comemoração dos 70 anos da Declaração dos Direitos Humanos e dos 10 anos da Declaração dos Povos Indígenas. No mundo, esses povos somam 375 milhões de pessoas, 5% da população mundial, mas representam 15% dos mais pobres e vulneráveis”, ressaltou.

Já Priscila Franco, presidente do Memorial da América Latina, fez uma relação do festival com os painéis da obra Etnias, de Maria Bonomi, que contam a história do Brasil e estão instalados no local. “Os indígenas construíram a América Latina”, lembrou.

Evento teve palestra e rodas de conversa (foto: Ira Romão)

Medicina indígena ou ocidental?

A primeira atividade do dia foi a palestra “Direitos Indígenas na Agenda das Nações Unidas”, de Luís Grupioni. Membro da Rede de Cooperação Amazônica, ele afirmou que os povos indígenas são majoritários em vários países da América Latina, mas no Brasil representam 1% dos habitantes. “São mais de 180 línguas diferentes e aldeias, mantendo seus costumes e ritos”.

O governo brasileiro assumiu o compromisso internacional de consultar as populações afetadas na questão de terras, mas isso não tem acontecido, disse Grupioni. Ele destacou o freqüente acionamento do Judiciário para decidir tais casos, como a construção de uma estrada em terra indígena. O palestrante também falou sobre a Revisão Periódica Universal (RPU) que o Conselho da ONU faz para a melhoria das práticas de direitos humanos. Segundo ele, a última, de 2017, apontou 246 recomendações para o Brasil. Dessas, “apenas quatro não foram acatadas. As demais, o país terá que implementar”, alertou.

O cineasta e pajé Carlos Papá (foto: Ira Romão)

Com a mediação da roteirista Marcela Godoy, a primeira roda de conversa discutiu a saúde indígena. O cineasta e pajé Carlos Papá contou histórias de cura, com métodos tradicionais das aldeias. Na opinião dele, o segredo da boa saúde está no alimento. “A hora de comer é sagrada, em silêncio, sentindo o sabor da comida”, recomendou. Outro conselho do pajé foi “viver em paz, encontrar o seu interior e respeitar o lugar onde vive, as plantas, as pessoas. Se você chamar um espírito ruim, com o tempo ele vai te cobrar”, disse.

A coordenadora do projeto Xingu, Sofia Mendonça, comentou que a medicina ocidental sempre se colocou como única e verdadeira, enquanto nas aldeias a saúde é cuidada o tempo todo. “Um período de mau tempo, com chuva e trovões, pode afetar o indivíduo”, apontou.

Para ela, as duas vertentes de tratamento deveriam se aproximar. “Ao mesmo tempo em que há um trabalho do SUS, de atenção diferenciada aos indígenas, muitos profissionais são levados às aldeias e sufocam a medicina indígena”. A especialista apoiou as imunizações contra a gripe, malária e outras doenças que afetam as aldeias, mas avaliou que o povo indígena tem um conceito mais amplo da saúde, com cuidados no dia a dia e não apenas na doença.

Em continuidade ao painel, Pedro Cesarino, pesquisador em antropologia, relatou o caso de um jovem gravemente doente, levado para tratamento em Manaus. Dois meses depois, ele foi trazido de volta, “quase moribundo” e desenganado pelos médicos, que nem mesmo diagnosticaram a doença. “De várias aldeias, vieram xamãs e pajés para o tratamento, e, em duas semanas, o paciente se recuperou do mal de sucuri, uma doença terrível”.

Same Putume, líder Huni Kuin (foto: Ira Romão)

O final da primeira fase de debates trouxe Same Putume, líder Huni Kuin na região de Feijó, no Acre. Ela admitiu que muitas comunidades “perderam” a prática da medicina indígena, mas “estão voltando, porque a cura está dentro da floresta”. A líder pediu respeito aos alimentos: “Existem muitos tipos de peixe que não dá pra comer. Se for um peixe velho, pode ter problemas nas costas, na coluna”.

Ela ressaltou que o parto tradicional indígena tem atraído o interesse de mulheres ocidentais. “Na aldeia, a parteira atende a grávida e tem como colocar a criança na posição certa para o nascimento, sem sofrimento”.

Direitos e intolerância religiosa

Mediado por Marília Cury, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, o segundo debate abordou evangelização, culturas urbanas e direitos indígenas. A educadora Cristine Takuá condenou “a violência da imposição dos saberes intelectuais e religiosos ocidentais. Eles querem calar a alma, mas nossa cultura deve ser respeitada”. Ela denunciou a intolerância religiosa que o povo indígena está sofrendo. “As igrejas evangélicas formam frentes de missões para desarticular, enfraquecer as aldeias e relacionar o pajé com o demônio”.

O cineasta Luiz Bolognesi, diretor do premiado documentário “Ex-pajé”, defendeu o modo indígena de viver. A obra mostra um pajé tradicional obrigado a se converter ao cristianismo. Segundo ele, pesquisas arqueológicas indicam que a Amazônia chegou a ter “até 15 milhões de habitantes”, com organização social, escolha de líderes e convivência harmoniosa com a floresta”.

O cineasta Luiz Bolognesi (foto: Ira Romão)

Abelardo Pinto, ex-coordenador do projeto MicroBacias, comentou que, desde a criação do Estatuto do Índio, em 2010, há a promessa de demarcação das terras indígenas, sem sucesso. Esse panorama impediu investimentos públicos em saúde e educação. “Apenas 20% das aldeias paulistas conseguiram recursos do governo para projetos sociais”, revelou.  O projeto é realizado pelo governo do estado em parceria com o Banco Mundial.

Na última fala do evento, Dirce Kaigang, pajé da aldeia Vanuiri, no oeste paulista, também protestou contra o “desrespeito à cultura indígena”. Ela diz aceitar todas as religiões, mas que sua aldeia tem sido desrespeitada.  Referindo-se às igrejas evangélicas, ela afirmou que os religiosos “trazem doenças carnais e espirituais. No passado, os não-índios matavam com sangue e hoje matam com a Bíblia”, lamentou.

Paralela à programação do Festival, a Feira de Cultura Indígena, organizada pela ONG Opção Brasil, recebeu expositores de vários cantos do país. Cerca de dois mil visitantes puderam experimentar a pintura corporal indígena, conversar com os artistas e conhecer uma infinidade de peças do artesanato tradicional. Pulseiras, bolsas, cestos e colares estavam expostos ao lado de objetos de cerâmica, cachimbos e conjuntos de arco e flecha.

Conjuntos de arco e flecha foram expostos no Memorial da América Latina (foto: Ira Romão)

Na abertura e no encerramento do festival foram apresentados Torés, rituais sagrados de canto e dança, com membros de todas as etnias. No intervalo dos debates, um grupo de Praiás Pankararu, com vestimentas religiosas, também se apresentou.   

O festival faz parte da agenda de eventos O Mundo que Queremos, uma série de ações relacionadas aos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

*A foto do topo da matéria retrata o cacique Iradzu Kariri Xocó, de Alagoas.

3 thoughts on “Indígenas contam as dificuldades para preservar sua medicina e sua fé”

  1. Poderia ter tido mais divulgação, temos o primeiro Conselho de intolerância religiosa do Estado do Rio de Janeiro e da América Latina, que poderia ter sido convidado e poder contribuir sobre a intolerância religiosa aos povos indígenas .

  2. Triste, mas importante, relembrar esse lado tão sombrio da história brasileira e suas consequências até hoje, na política, saúde e religião.

  3. Imagino que o nível de preconceito contra os povos indígenas também seja muito alto, como as outras minorias no Brasil

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