Os dois caminhos da luta trans

Por Amara Moira

Travesti, feminista, doutora em Literatura pela Unicamp (com tese sobre “Ulysses” de James Joyce) e autora do livro autobiográfico “E se Eu Fosse Puta” (hoo editora, 2016).

 

Quem só se dispõe a ver o movimento trans como luta para que possamos, por meio de intervenções cirúrgicas e medicamentosas, transformar nossos corpos ainda não foi capaz de perceber o quão fundo estamos mexendo no que se compreende por homem, mulher, masculino, feminino e, em suma, gênero.

Padrões de corpo cis (“cis”, o contrário de “trans”, toda pessoa que não é trans, pois ou você é uma coisa ou outra, não há como fugir disso) continuam orientando a construção dos nossos corpos. Mas, ao mesmo tempo, vamos vendo também a afirmação de modelos cada vez menos pautados por corpos que não os nossos e, com isso, vai começando a fazer sentido falarmos em masculinidades e feminilidades propriamente nossas, trans.

Exemplo? Corpos e mais corpos se afirmando trans mesmo sem se valer de hormônio ou cirurgia. Homens trans abrindo mão de disfarçar os seios e reivindicando a vagina com que nasceram como masculina. Mulheres trans e travestis lidando de forma mais tranquila com seus pêlos (inclusive os faciais), com seu pouco ou nenhum peito, entradas, calvície.

A travesti e escritora Amara Moira (Reprodução/Twitter)

Aí tantes de nós que se permitem manter o nome de nascimento mas forçando-o a existir agora com novo gênero (a Raul, a Guilherme, a Laerte, o Priscila) ou, então, alterando-o para existir sem referência a um gênero específico (Lúci, Lune, Sá, Clári).

A verdade é que as expressões “homem com vagina” e “mulher com pênis” vão cada vez ganhando mais força, abalando qualquer possibilidade de buscarmos no genital (que se tem ou que se deseja ter) a explicação do gênero, e a consequência disso é uma transformação radical do que se entendia por feminino e masculino, de como homens e mulheres podiam/deviam ser.

Mais do que isso até, pois, com a emergência de subjetividades não-binárias, vemos surgir ainda um conjunto de pessoas que querem pensar e definir o que são sem sequer se valer das palavras “mulher” e “homem”.

Ninguém nasce querendo fazer cirurgia ou tomar hormônio, ninguém traz no DNA a necessidade de ter um genital xis distinto daquele com que se nasceu, mas desde criança pessoas trans são ensinadas que o problema está em seu corpo, que o que nos impede de existir para o outro da forma como existimos para nós é a presença ou ausência desse genital, com tudo o que decorre disso.

“Você não pode ser menina, porque tem pipi” ou “você tem pepeca, lógico que não é menino”, frases que nos acompanham desde cedo (e ai de quem contrariá-las!), justo o momento em que começam a nos condicionar a odiar nossos corpos, a entender que o genital com que nascemos é o responsável por invalidar a compreensão que fazemos de nós.

Qual o espanto quando nos veem não poupando esforços para transformar tudo aquilo que, em nós, a começar pelo genital, impede que existamos para o outro da forma como nós mesmos e mesmas nos entendemos?

Até pouco tempo atrás, só se conseguia retificar nome e gênero nos documentos depois de realizada a cirurgia de redesignação sexual, inacessível a tantas e tantos seja pelo tempo de espera e lista de exigências do SUS (Serviço Único de Saúde), seja pelos preços absurdos das clínicas particulares, seja pelo próprio medo de submeter-se a um processo cirúrgico altamente invasivo. E não precisa ser assim.

Dois caminhos então se desenham para a comunidade trans. O primeiro, o do direito a transformarmos nossos corpos, uma vez que as tecnologias existem e que acompanhamento psicológico, em boa parte dos casos, não é capaz de fazer com que, num mundo transfóbico, num mundo que só valida o gênero de mulheres que têm vagina e de homens que têm pênis, estejamos em paz com o corpo que temos.

Diversos paralelos podem aqui ser pensados, por exemplo com relação a pessoas negras numa cultura dominada por padrões de beleza brancos, racistas, com relação a pessoas gordas numa sociedade gordofóbica ou, ainda, pessoas com deficiência num mundo absurdamente capacitista.

O segundo caminho, o da ressignificação dos nossos corpos e genitais, reivindicando o direito de entendê-los por novos prismas, de renomeá-los, redefini-los. Nesse sentido, pênis e vagina deixariam de remeter a gêneros específicos, passando a poder integrar tanto o universo feminino quanto o masculino: partes do corpo e somente isso, livres para serem entendidos de múltiplas maneiras.

Em ambos os casos uma só certeza, genital não é mais destino.

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