Seminário discute como ampliar vagas para sem teto, ex-detentos e refugiados

Flexibilizar o processo seletivo, mudar as rotinas de trabalho e oferecer ambientes de trocas. Essas são algumas ações feitas por empresas que buscam contratar e manter em suas equipes mais pessoas que estão em situação de rua, deixaram o sistema prisional, são refugiados ou LGBT+.

Essas iniciativas foram debatidas na terceira atividade da Semana pela Paz nessa quarta-feira (19), em São Paulo. O encontro foi organizado para refletir sobre como aumentar a contratação de pessoas que costumam enfrentar grandes dificuldades para obter trabalho.

Prudence Kalambay, que veio do Congo para o Brasil há dez anos (Gsé Silva/DiCampana Foto Coletivo)

A primeira mesa de debates tratou dos egressos do sistema prisional, LGBTs e pessoas em situação de rua. Rubi de La Fuente, criadora da produtora Transmissão, falou sobre a sua experiência como mulher trans. “Nós sofremos com apontamentos negativos, não somos bem vistas e quase nunca empregadas. Com o passar do tempo, decidi mudar e criei uma agência que só contrata homens e mulheres trans”, contou.

A falta de uma chance profissional também foi comentada por Karine Vieira, do Instituto Responsa, que oferece cursos e oportunidades de emprego para ex-presidiários. “Nosso desafio é conseguir vagas em empresas que têm receio para empregar essas pessoas, mas vejo que é preciso mostrar o outro lado. Eu já passei por isso e uso minha história para mudar outras”, definiu.

Neste sentido, Vanessa Lima, do grupo Tejofran, e André Lopes, da Ben&Jerry’s, mostraram iniciativas criadas para integrar estes grupos dentro das empresas, como acompanhamento interno e a criação de um ambiente receptivo para que as pessoas possam compartilhar suas experiências pessoais com os colegas de trabalho.

“Nos últimos dois anos, por exemplo, fizemos entrevistas com mais de 400 egressos. No começo do programa, a média de retenção era de 4 meses, hoje, chegamos a 18 meses. Há lideranças dentro da empresa que são frutos disso”, explicou Vanessa. Já na Ben & Jerry’s, dos 171 funcionários, 60% são mulheres, 40% negros, 30% LGBTs e 3% são trans.

Jonathan Berezovsky, do Migraflix (Gsé Silva/DiCampana Foto Coletivo)

Migrantes e refugiados

A segunda mesa foi composta por Prudence Kalambay, refugiada há dez anos no país, Fernanda Brasil, da Camicado, Jonathan Berezovsky, do Migraflix, e Marinalva Cruz, da Secretaria Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, além de Rute Rodrigues, da Specialisterne.

Levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aponta que o Brasil tem cerca de 47 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Para Marinalva Cruz, grande parte das empresas não costumam buscar pessoas de talento neste segmento.

“Quando falamos de mercado de trabalho, a maior parte das empresas contratam por obrigação e o recrutamento olha a deficiência e não a competência”, lembrou. “É importante ver as capacidades que as pessoas têm, como os autistas, e não ficarmos só nas aparências, que acaba ignorando e perdendo uma série de talentos. A busca deve ser sempre pelo potencial das pessoas”, completou Rute.

Rute Rodrigues, da Specialisterne (Gsé Silva/DiCampana Foto Coletivo)

A questão dos imigrantes foi trazida pela congolesa Prudence, que veio ao Brasil para fugir de uma guerra que há 20 anos assola seu país. No Brasil, disse que foi bem recebida, mas ainda ouve comentários de que os imigrantes chegam para ‘roubar empregos’. ‘Para pessoas, a palavra ‘refúgio’ lembra ameaça, mas a gente não está aqui pra roubar vaga de emprego e creche. Nós temos inteligência cultural para ajudar, trabalhar”, resumiu.
Fernanda Brasil falou sobre a iniciativa da Camicado com as refugiadas que trabalham no setor de moda. “Capacitar é um dos nossos objetivos, fazemos isso por meio de cursos e depois, contratações para atuar em nossa rede”, detalhou a executiva.

“Quando começamos o projeto e vimos que isso seria uma causa que iríamos abraçar, percebemos que era necessário flexibilizar processos, como é o caso dos documentos, que na maioria das vezes não são traduzidos e mesmo assim, nós aceitamos no processo seletivo”, exemplificou.

Ana Paula Fava, assessora para Assuntos Internacionais do governo de São Paulo, destacou que o objetivo dos temas trabalhados é permitir que ninguém fique marginalizado, mas que todos tenham as mesmas oportunidades.

Evento foi realizado no auditório da Secretaria de Desenvolvimento Social (Gsé Silva/DiCampana Foto Coletivo)

A representante dos Direitos Humanos do Pacto Global, Gabriela Almeida, falou sobre a declaração dos direitos humanos, além da Agenda 2030. “Essas mobilizações foram criadas para termos um planeta mais sustentável”, comentou.

Para Márcio Elias Rosa, secretário de Justiça do Estado, a sociedade deve ter compromisso com a dignidade da pessoa humana para que os direitos básicos sejam praticados e deixar de lado os discursos de ódio. “Tem gente que quer legitimar a violência, afinal, estamos na lei do mais forte. Mas é fundamental fazer o diagnóstico e questionar: nossas opções estão gerando paz social? Temos que compromisso ético”, disse.

Márcio Elias Rosa, secretário de Justiça do Estado (Gsé Silva/DiCampana Foto Coletivo)

A Semana pela Paz faz parte da agenda de direitos humanos O Mundo que Queremos. O evento termina nesta sexta-feira (21), com a Ação de Combate ao Ódio. Confira a programação abaixo:

Ação de Combate ao Discurso de Ódio
Sexta-feira, 21/9, das 14h às 18h
Auditório da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo – Praça da República, 53 – Centro, São Paulo

14h Fala de boas-vindas
Cleide Bauab Eid Bochixio, Secretária-adjunta da Educação do Estado de São Paulo

14h10 Exibição do documentário “A Guerra do Brasil”
Jornal O Globo

14h25 Palestra “Xenofobia: impactos e desconstrução”
Victor Del Vecchio e Vensam Iala (ProMigra – Projeto de Promoção dos Direitos de Migrantes)

15h Exibição do documentário “Preciso Dizer Que Te Amo”
+ bate-papo com o diretor Ariel Nobre

15h30 Palestra “Feminicídio”
Marina Ganzarolli (Rede Feminista de Juristas)

16h Palestra “CNV – Comunicação Não-Violenta”
Sílvio Royalle (Palas Athena)

17h Apresentação Cultural
Nduduzo Godensia Dlamini

17h30 Performance “Preciso Dizer Que Te Amo”
Ariel Nobre

18h Encerramento

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