Somos tod@s migrantes

Por Victor del Vecchio
Coordenador do programa de Promoção dos Direitos de Migrantes (ProMigra/FDUSP)

Zenaida Luisa Lauda Rodriguez
Peruana, doutora em Ciência Ambiental pela USP, membro do ProMigra

A migração constitui um fenômeno humano que compreende tanto o deslocamento de pessoas entre diferentes países quanto entre regiões dentro de um mesmo país. Nesse sentido, a ideia de que “somos tod@s migrantes” cada vez mais ganha força nas mídias e na sociedade em geral, sobretudo nos discursos contra o ódio e o preconceito.

Do ponto de vista da evolução humana, o próprio homo sapiens sapiens, espécie à qual pertencemos, é fruto de anos de combinações genéticas de grupos de hominídeos que ao longo da história empreenderam grandes migrações, propiciando seus encontros e reprodução. Uma vez “consolidada” a espécie humana, segundo a teoria da travessia do estreito de Bering, essa migrou da África para a Europa, Ásia e assim seguiu até às Américas. Desta forma, a migração teria um papel transcendental na formação das sociedades e em nós mesmos.

Victor Del Vecchio, do Promigra (foto: Ira Romão)

Em um país com a composição étnica do Brasil –mesmo que o racismo estrutural pretenda deixar isso menos evidente– é notório que a maior parte da população não pertence a um único grupo étnico. Ela é resultado da miscigenação de diversos povos que foram ocupando nosso país, ou ainda, que se misturaram com os grupos indígenas que ocupavam a região que viria a ser chamada de Brasil, com a vinda dos portugueses.

Incluem-se assim não só as levas de migrações históricas como a dos italianos, portugueses, espanhóis, alemães, japoneses e árabes, mas sobretudo a população de origem africana, que sofreu um processo de migração forçada com a escravidão. Isso deixa diversas marcas em nossa sociedade que se manifestam em aspectos que vão desde a estrutura sócio-econômica, assimilações culturais, até uma composição étnica que, segundo o censo de 2010, representa mais da metade da população brasileira.

Assim, é ponto de partida o reconhecimento de que, por mais “pura” que uma pessoa possa se considerar, invariavelmente, a migração teve papel fundamental na sua formação étnica, e até mesmo como animal racional. No entanto, negando estes fatos, alguns povos se clamam puros e racionais, gerando com isso fobia e manifestações de rejeição a aqueles que são estranhos.

As fobias, cuja origem de palavra é grega e vem de phóbos (medo), podem se manifestar como transtornos psiquiátricos, gerando pavor a objetos e situações que muitas vezes nem imaginaríamos que poderiam ser causa de temor. As fobias também podem-se manifestar em forma de preconceitos, como é o caso da homofobia (aversão à homossexualidade) e a xenofobia.

A xenofobia pode ser entendida como a “aversão ou preconceito com o estrangeiro” (xenos = estranho, estrangeiro), que pode se manifestar de diversas formas, inclusive institucionalizadas, como a restrição de direitos aos migrantes de acessar o sistema público de saúde ou de ensino do país no qual residem. O problema também se manifesta nas interações sociais e pode ocorrer de maneira mais sutil, como um maior rigor imposto a determinadas nacionalidades na checagem de documentos e revista pessoal em aeroportos –em casos como esse, não raro aparece junto à islamofobia.

Há de se mencionar que toda forma de violência baseada em diferenças de origem geográfica, linguística ou étnica pode ser considerada como xenofobia. Isso se aplica, inclusive, para casos como o de nordestinos que têm sua cultura ou intelectualidade inferiorizada em relação ao sudeste, ou ainda, descendentes brasileiros de povos andinos que são alvo de chacotas relacionadas às profissões da indústria têxtil, ou mesmo à triste condição de “mulas do narcotráfico”.

De uma forma ou de outra, cabe refletir que qualquer manifestação xenófoba é não só um exercício de intolerância e falta de empatia, mas também uma grande hipocrisia, uma vez que, se a pessoa que pratica esse ato não foi migrante em algum momento, certamente, algum ancestral dela já foi.

Devemos ainda notar que foi justamente em momentos de grande intercâmbio cultural que a humanidade mais floresceu, pois as trocas interculturais podem ser benéficas por trazerem diferentes perspectivas sobre o mundo. Isso é possível quando ambas as partes –tanto os migrantes como a população local– estão abertas para enriquecer sua experiência. Todos saem ganhando ao compartilhar repertórios culturais e novas formas de viver. E dar possibilidades para que uma pessoa esteja mais integrada e à vontade na sociedade onde vive é um ato de humanismo, de perceber o outro em uma situação na qual, não sabemos se um dia nós ou quem amamos também poderão estar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *