TRANSdocumenta é aberta com debate sobre LGBTQIA+ no trabalho e nas periferias

Paola Xavier conseguiu um emprego como teleoperadora. Quando foi usar o banheiro feminino pela primeira vez, foi advertida por sua coordenadora. “As pessoas estão incomodadas porque você não é mulher”. No dia seguinte, pediram para ela levar documentos que provassem sua operação de mudança de gênero. Depois de uma semana, Paola acabou demitida.

A história, vivida por Paola, hoje produtora cultural, foi contada na noite de quinta-feira (28), Dia do Orgulho Gay, durante a abertura da mostra TRANSdocumenta, que exibe documentários e filmes sobre os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Transexuais, Transgêneros, Queers, pessoas Intersexo e Assexuais). As produções, nacionais e estrangeiras, serão exibidas até 9 de julho.

Outro ponto debatido no encontro foi a baixa expectativa de vida das pessoas trans no Brasil, de apenas 35 anos. “Precisamos reverter as estatísticas, além de incluir pessoas que não estão cientes dessa realidade, por meio de atividades iguais a estas, além de um diálogo mais próximo”, disse Ana Paula Fava, assessora de Assuntos Internacionais do governo do estado de São Paulo.

Lili Vargas, uma das participantes da web série Memórias da Diversidade (Léu Britto)

Além da abertura da mostra, o evento contou com o lançamento do projeto Memórias da Diversidade, websérie criada pelo cineasta Lufe Steffen em parceria com o diretor do Museu da Diversidade Sexual, Franco Reinaudo, para preservar as histórias da comunidade LGBTQIA+, através das histórias de idosos acima de 65 anos.

Segundo Steffen, ouvir essas pessoas é a maneira de manter vivos os acontecimentos que marcaram a vida de gays e lésbicas no país. “A gente queria resgatar memórias e pensar como era ser homossexual em outras épocas”, define. Os episódios podem ser acompanhados pelo canal do museu, com atualizações semanais.

Entre as atrações, algumas pessoas circulavam servindo aperitivos e bebidas. Todas elas são trans e foram empregadas pelo projeto Transmissão, que nasceu para dar oportunidades de trabalho. Um exemplo é o de Victória dos Santos. Expulsa de casa pelos pais, nunca conseguiu uma vaga por conta de sua identidade. Ali, como garçonete, vivia algo novo. “Hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. Depois que me assumi, essa foi a primeira oportunidade que consegui”, comemorava.

Victoria dos Santos, que trabalhou no evento (Lucas Veloso)

Vestida com um salto branco brilhante e um macacão de veludo azul, Paola finalizou a mesa sobre empregabilidade trans com votos de que um dia o tratamento a todas as pessoas seja igual. “Me contaram que na empresa da qual fui expulsa hoje tem uma placa que deixa claro que pessoas trans podem o banheiro feminino. É gratificante ver o que está acontecendo”, resumiu a produtora do Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo.

Na tela

Rosa Luz, trans, é a personagem principal do curta metragem exibido na noite de abertura da mostra . O filme “Estamos Todos Aqui” conta a história da líder da Favela da Prainha, no litoral sul de São Paulo e aborda a questão da moradia, tema recorrente nas periferias, além de como são tratadas as LGBTQIA+.

Após a exibição, os diretores Chico Santos e Rafael Mellim comentaram as dificuldades para fazer o trabalho sobre o tema e de como os moradores do local se envolveram na produção ao contar suas próprias histórias para compor o roteiro final.

Chico Santos e Rafael Mellim, diretores do curta “Estamos Todos Aqui” (Léu Britto)

“Somos duas bixas. Nossos corpos são explorados e destroçados diariamente. Eu cresci ali, naquele lugar e conhecia aquelas pessoas. Não tinha como não falar e não envolvê-las”, contou Chico.

“Estamos Todos Aqui” será reapresentado em 9/7, às 16h, no MIS. Abaixo, a programação completa da mostra. Leia as sinopses das produções aqui.

29/6 (sexta-feira)
Museu da Diversidade Sexual
16h Exibição do documentário Last Chance (Última Chance)
18h Exibição do documentário Quarto Camarim

30/6 (sábado)
Museu da Diversidade Sexual
16h Exibição do documentário  Meu Nome é Jacque
18h Exibição do longa Auf der Anderen Seite (Do Outro Lado)

1/7 (domingo)
Casa das Rosas
13h Exibição do documentário Meu Corpo é Político e conversa com a diretora
16h Exibição do documentário Transit Havana

Cena de “My Prairie Home” (Divulgação)

5/7 (quinta-feira)
Casa das Rosas
20h Exibição ao ar livre do documentário My Prairie Home (Meu Lar nas Pradarias)

9/7 (segunda-feira)
MIS – Museu da Imagem e do Som

Auditório
13h30 Exibição de Ivana is Wondering
14h Exibição de Transit Havana
16h Exibição de Estamos Todos Aqui
17h Exibição de Auf der Anderen Seite (Do outro lado)
18h30 Exibição de Bicha Preta

Exposição de fotografias Com Muito Orgulho

Área Externa
12h -18h Feira de expositores LGBTQIA+ com participação de blocos LGBTQIA+ de festas de São Paulo

 

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